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Tópicos parciais extraídos do livro Elaboração de Projetos - Teoria & Prática

09) Critérios contábeis e critérios econômicos

Na elaboração e avaliação de projetos de investimento, as demonstrações contábeis projetadas são refeitas para levar em conta critérios de natureza econômico-financeira. Há grandes diferenças entre os conceitos de lucro contábil e lucro econômico. Suponha a situação de um empreendedor que pretenda estabelecer-se com uma loja comercial utilizando um imóvel que lhe pertença., como parte do capital social. Contabilmente, entrando como capital próprio, o uso deste imóvel gera despesas eqüivalentes à depreciação. Do ponto de vista econômico, as 'despesas' seriam o que se deixaria de ganhar com o melhor uso alternativo do imóvel. Suponha que pudesse ser alugado. O aluguel que se deixa de obter, seria um custo econômico, ou seja, o custo de oportunidade do recurso empregado. O lucro resultante, com base nesse critério, seria o lucro econômico. Sem dúvida, decisões tomadas utilizando esta última medida de lucro produzirão melhor resultado sobre o patrimônio do investidor.

A contabilidade adota o regime de competência, ou seja, as despesas e os custos são atribuídos aos períodos em que ocorrem os fatos. Do ponto de vista financeiro, definitivamente, toda e qualquer avaliação adota o regime de caixa, ou seja, despesas, custos, investimentos etc. são considerados nos instantes efetivos em que ocorrem as entradas ou as saídas de dinheiro. O elo de ligação entre um mesmo evento, registrado com base no regime de competência ou no regime de caixa, é a taxa de juros apropriada à situação. Um lucro de $1,0, contábil ou econômico, que já entrou no caixa de uma empresa, vale mais do que se vier a entrar após um prazo de doze meses. A taxa de juros serve para comparar valores que ocorrem em instantes distintos de tempo.

Estabelecidas as ligações e diferenças entre os aspectos contábeis, econômicos e financeiros, o Quadro Fluxo de Caixa a seguir servirá para ilustrar os pontos explicitados.

Vale lembrar que, para simplificar, não será considerado o efeito do imposto de renda. Do ponto de vista da empresa, sua finalidade é fazer transações, adquirindo insumos (bens e serviços), transformando-os, agregando valor, e, vendendo o bem ou serviço final produzido aos consumidores (domésticos ou industriais). Todas essas transações intermediárias proporcionam um resultado (lucro ou prejuízo) antes dos juros, denominado resultado operacional. Contabilmente, este valor é comparável ao ativo total, para avaliar a rentabilidade do ativo.

 

A - FLUXO DE CAIXA OPERACIONAL

ITENS \\ ANOS

2005

2006

2007

LUCRO LIQUIDO ANTES JUROS

(186,8)

38,1

181,8

(+) Depreciações

240,0

240,0

240,0

(+) Amortização do diferido

17,9

17,9

17,9

= FLUXO DE CAIXA BRUTO

71,1

296,0

439,7

       

Inv em capital giro operacional

314,2

105,6

76,5

(+) Imobilizações

0,0

0,0

0,0

(+) Gastos de implantação

0,0

0,0

0,0

= INVESTIMENTO BRUTO

314,2

105,6

76,5

       

Fluxo de caixa bruto

71,1

296,0

439,7

(- ) Investimento bruto

(314)

(106)

(77)

       

= FCL (Fluxo de caixa líquido)

(243)

190

363



B - FLUXO FINANCEIRO


ITENS \\ ANOS

2005

2006

2007

Resgate/(aplicações)financeiras

11,9

(4,5)

(271,0)

(+) Juros recebidos

0,2

3,6

4,7

(+) Captação//(amort.)de empréstimos

(9,4)

(228,1)

(118,8)

(-) Despesas financeiras

(9,5)

(10,5)

(7,1)

(-) Dividendos pagos

0,0

49,0

29,0

(+) Aumento de capital

250

0

0

= Fluxo financeiro total

(243)

190

363


De vez que o lucro operacional já está deduzido das depreciações e amortizações do ativo diferido, deve permitir recuperar o capital total investido. Neste ponto surgem duas questões cruciais:
a) Como avaliar o desempenho final, em uma perspectiva de longo prazo, se em alguns anos houver lucros e em outros, prejuízos?
b)
O que seria preferível, lucros mais baixos, mas obtidos em um prazo menor, ou, lucros maiores, em prazos maiores? A resposta a essas questões vincula-se à necessidade de levar em conta o valor do dinheiro no tempo, já que $1,00 hoje, vale mais do que $1,00 daqui a um ano. O efeito do tempo sobre o valor do dinheiro é medido com base na taxa de juros.

Para transformar o lucro operacional no fluxo de caixa bruto, são estornadas as despesas e custos que foram computados, m as que não provocaram saídas de caixa. Ou seja:

Fluxo de Caixa Bruto = Lucro Operacional + Depreciações + Amortizações do diferido.

No Quadro A acima, para 2005 foi estimado um prejuízo de $186,8 e um FCB de $71,1. Entretanto, para iniciar as operações nesse ano, são feitos investimentos na formação do capital de giro no valor de $ 314,2. Logo, houve um déficit entre o FCB e o investimento bruto, de $243. Ou seja, em 2005, o fluxo de caixa líquido foi negativo naquele valor. A empresa absorve recursos nas suas operações. Além disso, no mesmo ano, deve pagar empréstimos e financiamentos, sendo $9,4 de principal e $9,5 de despesas financeiras. Para atender a essas duas obrigações, efetua um resgate de aplicações transitórias anteriormente efetuadas de $11,9 e os sócios integralizam capital social, no valor de $250,0.

Em resumo, o fluxo de caixa operacional informa a geração ou absorção líquida de recursos pela empresa e o fluxo financeiro mostra a contrapartida daquele fluxo, ou seja, quais os montantes que estão sendo recuperados ou investidos pelos estruturadores do passivo de longo prazo, sócios e financiadores.

Sob a ótica do empresário, interessa o fluxo de caixa operacional líquido, após deduzido do fluxo de caixa destinado aos financiadores. Ao avaliar a série de valores que desembolsa e que recebe, deve levar em conta a taxa de juros a qual pode emprestar seus recursos, ou seja, seu custo de oportunidade.

O financiador que estará recebendo juros, avaliará como parte de seu risco de crédito, o comprometimento do fluxo de caixa com o pagamento das prestações da dívida (amortizações e juros). No Quadro 3.1, se houvesse incidência do imposto de renda, o emprestador de recursos a longo prazo estaria mais preocupado em avaliar a capacidade de amortização do projeto como :

Capacidade de amortização = Lucro líquido após o IR + Depreciações + Amortizações do diferido - Investimentos de reposição.

Poderia ainda estender o conceito acima, utilizando o fluxo de caixa operacional líquido, como capacidade de pagamento. Na formação deste valor não são deduzidos os juros, sendo portanto, comparável às prestações (soma de amortizações e juros). Outros índices de cobertura das obrigações poderiam facilmente ser calculados.

O fluxo de caixa operacional serve de base para o cálculo da taxa interna de retorno do ativo operacional. Ou alternativamente, para o cálculo do VPL (VALOR PRESENTE LÍQUIDO) do projeto. Neste caso, a taxa de desconto, ou seja, o custo de capital, será uma média ponderada entre o custo de oportunidade do capital próprio e o custo do capital de terceiros, sendo este, a taxa de juros média dos dívida.

Fonte: "Manual VPS de Elaboração de Projetos"
V
ilmar Pereira dos Santos